Kimi-Matias Räikkönen, o campeão mundial de Fórmula 1 de 2007, está de volta. Depois de três anos pilotando no Mundial de Rally, Kimi retorna para a categoria máxima do automobilismo. E volta de preto, pilotando um dos carros da nova equipe Lotus. O aguardado primeiro contato aconteceu nesta última semana nos testes em Valência, Espanha, para a alegria do próprio Kimi – e de muitos fãs da F1.
Raikkonen é um dos pilotos que chama a atenção por fugir do padrão que se espera de um esportista. Sempre taxado de frio pelos outros pilotos e por jornalistas, na realidade pode-se dizer que o finlandês faz mais o gênero “desencanado”. Nas pistas, quando tudo está bem ou ele está motivado, esforça-se ao máximo para obter o melhor resultado. Todo mundo deve se lembrar do GP da Malásia de 2009, quando a maioria dos pilotos – inclusive o então companheiro do Kimi na Ferrari, Felipe Massa – aguardavam em seus carros no grid para saber se a corrida continuaria ou não, já que a etapa estava paralisada por causa das fortes chuvas... Raikkonen estava nos boxes da equipe, tomando um sorvete.
Ah, ainda há todas aquelas “extravagâncias” com festas e bebidas. As festinhas foram várias, com inúmeros vídeos delas indo parar no YouTube. E, quer saber? Ele está mais do que certo. Para que a fama, mulheres, dinheiro e tudo mais se você não pode aproveitar?
Raikkonen também têm méritos por sua carreira meteórica. Tudo começou com um rápido destaque na Fórmula Renault Inglesa, o que chamou a atenção da equipe Sauber, sendo contratado como piloto titular quando ainda tinha apenas 23 corridas de monopostos do currículo e 21 anos de idade. Para a sorte da Sauber, a temporada de 2001 foi incrível, fazendo com que a equipe terminasse o campeonato de construtores na quarta posição.
Os resultados foram tão bons que, com 22 anos, Kimi Raikkonen foi contratado pela equipe McLaren, que, nos quatro campeonatos anteriores, havia conquistado dois títulos e dois vices de pilotos, além de um título de construtores. E se a temporada de 2002 foi de aprendizado na nova equipe, a de 2003 foi surpreendente: com um carro defasado, o finlandês fez uma ótima temporada e, mesmo com apenas uma vitória no ano, disputou o título com Michael Schumacher até o fim do campeonato. Dá para dizer que, com um carro inferior, foi um dos poucos que fez frente ao alemão.
Pena que, quando tudo parecia propenso para que Kimi chegasse ao ápice da carreira, McLaren construiu em 2004 um carro abaixo da crítica. Para 2005, uma nova mudança de rumos: Raikkonen disputou o título ponto a ponto com o espanhol Fernando Alonso, da Renault. No total, foram sete as vitórias naquele ano. Em 2006, uma nova bola fora da McLaren e uma certa falta de estimulo do piloto o levaram a mais uma temporada sem vitórias.
Tudo mudou, claro, em 2007. Contratado pela Ferrari, Kimi Raikkonen ocupou o antigo lugar de Schumacher na equipe, se tornando companheiro de Felipe Massa. E o finlandês, principalmente na segunda parte do ano, devorou o brasileiro. Foram seis vitórias contra apenas três de Massa (contando, claro, a conquista do GP Brasil, que Massa abriu mão em prol do companheiro na luta pelo título). Claro que o campeonato não veio apenas pelo empenho de Kimi, mas também pelas brigas entre os dois pilotos da McLaren: Lewis Hamilton e Alonso. Tanto é que os três chegaram aqui no Brasil com chances de título e Kimi era apenas o terceiro na tabela de classificação antes da corrida final.

Em 2008, foi a vez de Massa devorar Kimi Raikkonen, que estava cada vez mais desmotivado – ou talvez sentisse que não havia muito o que fazer depois do título. Já em 2009, com um carro ruim na Ferrari, Raikkonen até que se destacou se compararmos os resultados entre os companheiros de equipe: o finlandês foi sexto, contra o 11º lugar de Massa no Mundial. Mas isso não foi o suficiente para a Scuderia, que acreditava a esta altura que faltava comprometimento de Kimi. O contrato do piloto foi rescindindo e no seu lugar entrou Fernando Alonso.
Há quem diga que Kimi preferiu sair da F1 após perder a vaga na Ferrari por estar de saco cheio de todo aquele circo e pelas crescentes críticas às suas bebedeiras. Outros acreditam que foi por conta das nuances da rescisão contratual com a Ferrari, que garantiria maiores ganhos fora da categoria. Também pode ter sido pelo fato de não ter recebido nenhuma proposta para pilotar um carro vencedor. Já outros dizem que Kimi queria apenas se divertir, correr de rally e esquecer as obrigações de um campeão mundial.
Fato é que de 2009 a 2011, Kimi viajou a Europa competindo no Mundial de Rally. Até esta semana. Afinal, surgiu uma proposta – provavelmente – irrecusável para pilotar para a nova equipe Lotus, a antiga Renault, carro que o derrotou em 2005.

E olha que inicialmente os carros pretos e dourados prometiam, já que a equipe criou um revolucionário sistema de freios, que permitiria manter a altura do bico do carro nas freadas, trazendo assim ganho de preciosos centésimos. Mas, por reclamação dos outros times, o sistema foi banido pela FIA antes mesmo da estreia.
Para Kimi, isso não importa muito. O piloto já está dizendo para quem perguntar que este ano não haverá lutas por vitórias e que a Lotus deverá ficar no meio do grid, até porque ele próprio precisa se adaptar aos novos carros da categoria – e principalmente aos novos pneus Pirelli.
Sem pressão. É assim que ele gosta de pilotar. E é assim que ele pode surpreender. Pena que os capacetes não são transparentes. Se fossem, teríamos visto esta semana, durante os testes em Valência, um enorme sorriso no rosto do finlandês.
O que posso dizer é que também estamos sorrindo, Kimi. Afinal, não é qualquer temporada da F1 na qual podemos acompanhar nada menos que seis campeões mundiais na pista...

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